trabalho remoto viver viajando

10 min. de leituraSobre trabalhar viajando: ansiedade, produtividade e dinheiro

6 de março de 2020 9 min. de leitura

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10 min. de leituraSobre trabalhar viajando: ansiedade, produtividade e dinheiro

Tempo de leitura 9 minutos

Primeiro, foi preciso entender como era possível que as duas palavras fossem juntas: trabalhar, viajando. Depois, descobrir como distribuir na balança dos dias. E só então, com alguma experiência, é que veio a certeza: dá pra viver viajando e trabalhar viajando, sendo mais produtivo do que antes, e ganhando mais.

O que foi, no mínimo, uma surpresa para quem começou a jornada assumindo que ganharia bem menos. Larguei um cargo em uma empresa estabelecida, deixando para trás um bom salário garantido todo mês e promessas de carreira. Certo de que seria impossível conseguir a mesma renda viajando, eu já estava disposto a viver com menos.

Do momento da decisão de pedir demissão para frente, era eu o responsável por fazer o próprio horário e lidar com minha sede de ver o mundo. Parecia impossível abrir mão de visitar um lugar novo para continuar o dia inteiro no computador.

E eu estava completamente errado

Acertei que minha produtividade seria afetada, mas errei supondo que a produtividade seria afetada negativamente. Errei em associar que trabalharia menos horas, e logo, entregaria menos e receberia menos. E, para além disso, descobri outros desafios e consequências que nunca poderia prever antes de começar a trabalhar viajando.

minha motivação e minha ansiedade de trabalhar viajando

Se você ama viajar e nunca teve que gerir o próprio tempo de trabalho, talvez te pareça quase impossível conciliar as tarefas da rotina com os passeios em um lugar novo, principalmente se não tiver ninguém cobrando. Para mim parecia, mas a realidade acabou nos mostrando algo diferente: a motivação vem muito mais do medo de ter que parar de viver viajando do que de qualquer cobrança, da minha própria cabeça ou dos clientes. 

Vivendo em lugares que você escolhe todos os dias, é quase impossível perder a consciência de que esta é a vida que eu lutei para ter e que é minha responsabilidade mantê-la: se dar mole no trabalho, o sonho é ameaçado.

O fardo de equilibrar vida pessoal e trabalho

Difícil de acreditar, mas a mesma motivação e ansiedade que nos leva ao trabalho pode nos tirar o tempo de aproveitar os lugares. Nos primeiros meses como nômade, fui levado por essa ansiedade de manter o dinheiro entrando e acabei deixando de curtir – coisa que acontece com alguma frequência ainda hoje. 

Não conseguir equilibrar a vida de viajante com a de trabalho é um tipo muito invisível de autossabotagem. Esquecer das prioridades e mergulhar nos problemas dos outros (com trabalho excessivo) é dar razão à voz de que a vida nômade não é permanente, não é possível, não é para você.

Eu entendi que era preciso abrir um espaço para o trabalho e para mim ao mesmo tempo. E que produtividade não é uma palavra apenas para máquinas humanas movidas a cafeína e dispostas a perderem noites em nome da alta performance. É uma forma de organizar a vida para dar espaço para as coisas que realmente precisamos e também para as que queremos fazer, e tirar da frente tudo o que não faz mais sentido.

Meu sistema de recompensa pra trabalhar mais em menos horas

Quando comecei a trabalhar por conta, senti na pele o que, em maior ou menor grau de consciência, você também já deve ter sentido: se temos uma tarefa que leva trinta minutos para ser feita, mas temos oito horas para entregá-la, vamos arrastá-la durante as oito.

A gente sabe que terá tempo para se distrair, para buscar inspiração, que pode bater papo, checar os emails, demorar-se um pouco mais entre o banheiro e o café até chegar o “momento ótimo” para fazer o que tem que ser feito. 

E eu acabava deixando o trabalho mais denso, o que exige mais esforço e concentração, para as últimas horas antes do prazo de entrega, morria de ansiedade, mas entregava. Como não queria viver desse jeito, foi importante entender e lidar com o fato que o que realmente coloca a gente produtivo é a deadlineo quanto de tempo temos para fazer acontecer, e não a quantidade de horas sentado na frente do computador. 

Entendendo isso, comecei a enxugar o tempo de trabalho e me propor um sistema de recompensa para o senso de urgência diário: só posso sair para explorar a cidade depois de terminar todo o trabalho. Adapto esse sistema conforme o fuso de onde estou, mas a lógica é sempre a mesma: se o mar do Caribe me espera como recompensa, não vou querer procrastinar nem mesmo o trabalho mais difícil.

Na prática, se em sete horas de trabalho eu não conseguir resolver tudo o que planejei, eu perco o dia. E se isso se repete por alguns dias seguidos, eu começo a ficar mal e entendo que é hora de rever o meu planejamento porque, com certeza, tem algo errado. Ficar uma semana inteira só no trabalho, com um lugar incrível e desconhecido ao meu alcance, tem consequências severas no humor e produtividade, e faz a vida que escolhi perder o sentido. 

As três coisas mais importantes

Mesmo produtivo e com o tempo organizado, você pode sentir que não dá conta – eu me sinto assim. Colocar no papel tudo o que quero ser e fazer é um exercício importante quando estou confuso e angustiado com o que tenho que fazer, e sempre será assim, porque a quantidade de coisas que queremos nunca cabe no tempo que temos. Na rotina de trabalhar viajando, o drama e a solução estão em escolher o que fazer a cada dia.

Desde o começo do trabalho remoto, experimentei muitas maneiras diferentes de me organizar e o método mais eficiente tem sido o de priorizar três coisas por dia. Isso não significa que não vou fazer as outras. Significa que coloco a minha melhor energia nas tarefas que vão fazer diferença se forem feitas hoje. Eu tenho picos de produtividade pela manhã. Minhas três primeiras horas do dia são suficientes para fazer coisas que, se eu deixar para a tarde, vou provavelmente demorar uma semana inteira para terminar.É importante entender isso, e colocar as coisas mais importantes para serem feitas no seu horário produtivo.

Essa escolha das três coisas mais importantes vem do planejamento estratégico que faço da minha empresa, e revejo isso pelo menos todo mês, e toda vez que preciso. No momento que estou agora, de nascimento de uma nova empresa, meu foco está em tarefas que:

  1. tragam mais retorno financeiro em curto e médio-prazo;
  2. ajudem as pessoas que trabalham comigo a serem mais produtivas;
  3. deixem alguém extremamente satisfeito.

No mar de coisas para fazer que posso criar me mantenho na sanidade começando pelo que mais importa, que costuma ser também o que é mais difícil. Nas horas restantes de trabalho, o que sobra pra fazer flui fácil. Assim é possível sair pra boiar nas águas do Atlântico às quatro da tarde de um dia de semana, ou bater um rango no centro da cidade. Assim é possível trabalhar viajando. Ainda com alguma culpas, pendências ou preocupações.

Tudo que já domino vai para o piloto automático

Produzir mais também consiste em otimizar o tempo do que é rotineiro. Mesmo que você não seja um especialista no seu trabalho, é fácil perceber que algumas coisas se repetem e mantêm um padrão, mesmo as criativas.

Quando encontro um caminho eficiente para fazer uma tarefa com sucesso, documento em um playbook: uma checklist de passos, com ações claras, links, modelos e tempo necessários. Assim, tenho noção de quanto tempo é preciso reservar para que a tarefa seja feita sem ansiedade e com o mesmo resultado. Na medida em que vou encontrando maneiras mais produtivas, atualizo o processo.

Com os processos claros é mais fácil pensar em maneiras de automatizar o trabalho que você faz repetidamente, com ferramentas, o que é interessante não só para quem quer trabalhar viajando. Eu, quando recebo um email novo de cliente, ele vai automaticamente (por meio do IFTTT) para minha lista de coisas a fazer no Asana. Quando for a hora de dar prioridade a essas demandas, elas já estão em um lugar só, organizadas. Isso faz parte de um processo de atendimento aos clientes que estabeleci para minha agência.

Menos horas, mais produtividade, mais clientes

À medida que consegui ser mais produtivo, fui assumindo mais clientes, o que valorizou a minha hora de trabalho – seis vezes mais do que meu emprego de carteira assinada. Como a demanda de pessoas querendo meu serviço cresceu, hoje vendo meu serviço por três vezes a mais do valor de quando comecei minha primeira agência de marketing, porque entendi que era isso mesmo que valia no mercado.

Os medos que tinha sobre trabalhar viajando deu lugar à certeza do meu valor, e de que não preciso me submeter a qualquer tipo de trabalho que apareça pra me manter viajando (nem aturar clientes que não querem ter uma relação construtiva). Claro que isso não aconteceu da noite para o dia. Foi um processo longo de tentativa e erro (comecei isso há quase quatro anos e continua), e que me ajudou a descobrir no que não sou bom e no que sou – aquilo que faço com agilidade e que gera valor para as outras pessoas.

Comecei com uma agência de marketing que fazia de tudo – tudo mesmo. Experimentando, fui segmentando para algo que chamava de “orientado à resultado”, porque descobri que sou bom em geração de demanda para outros negócios por meio de mídia orgânica, paga, email e outros canais. Hoje tenho uma agência especializada em performance e pode ser que segmente ainda mais.

Só cheguei aqui, com essa clareza, porque fui sincero o suficiente comigo mesmo – terapia ajuda nisso. A ponto de deixar de lado até mesmo aqueles jobs que gostava, mas que nos custavam muito tempo (um tempo que poderia ser melhor aproveitado) porque não fazia com maestria, como criar o design de um site.

Tem dias em que trabalhar viajando não funciona 

Os dias ruins existem, mesmo estando em lugares lindos e diferentes. Aqueles dias nos quais não quero pensar em nada, quando duvido da minha própria competência. Não é fácil viver com depressão e tudo bem. Eu tenho aprendido a me perdoar.

A prova de que tenho tantos outros dias produtivos, em que foi possível dar cada passo pra conseguir viver (e trabalhar) viajando, me faz ter certeza que só preciso de um respiro, e que logo vou poder contar de novo comigo mesmo. Nada que um remanejamento de tarefas na semana não vá resolver.

Trabalhar viajando não apenas deslocou o trabalho de lugar, mas produziu mudanças tectônicas – como eu trabalho, como enxergo o trabalho, quanto consigo gerar de produção e renda por meio dele. Foi preciso estremecer, para que as coisas então se assentassem novamente.

Não era porque o mundo todo trabalhava de um jeito que essa era a única forma. Há outras formas e eu estou descobrindo a minha viajando. 

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